Ela se chama CRIOLA, tem 34 anos, e é a prova de que mulheres negras organizadas podem mudar o Brasil
Organização que atua há mais de três décadas no combate ao racismo contra mulheres e meninas negras, cis e trans, celebra seu aniversário personificando sua própria trajetória
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Ela se chama CRIOLA. Nasceu em 1992 e completa 34 anos. Esse é o retrato de uma vida inteira construída a muitas mãos, cheia de conquistas. É essa mulher que CRIOLA, organização de mulheres negras, escolhe apresentar neste aniversário: uma síntese do que mulheres negras brasileiras vêm construindo, coletivamente, e do que a própria organização ajudou a construir.
CRIOLA nasceu de um movimento. No ano de seu nascimento, mulheres negras do Brasil e da América Latina já se articulavam para colocar seus direitos na pauta pública, e o 25 de julho se tornava o Dia da Mulher Negra latino-americana e caribenha. Ainda criança, CRIOLA integrou a Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB), que levaria essa voz coletiva até a Conferência de Durban da ONU, em 2001 — um dos encontros mais decisivos já realizados sobre racismo no mundo.
Na infância e na adolescência, viu o Estado brasileiro começar a responder a décadas de mobilização negra: a criação da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial e a lei que tornou obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira nas escolas, ambas em 2003. Também nesses anos, ajudou a formar 300 lideranças em saúde da população negra pela Iya Agbá – Rede de Mulheres Negras contra a Violência, enquanto o país instituía, em 2006, a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra.
Na vida adulta, as conquistas se multiplicaram: o Estatuto da Igualdade Racial, em 2010; a responsabilização do Estado brasileiro pela morte de Alyne Pimentel, em 2011, que se tornaria referência mundial sobre mortalidade materna e racismo — e, anos depois, a Plataforma Alyne, criada por CRIOLA em sua defesa; e a Lei de Cotas, em 2012, reservando metade das vagas das universidades públicas para estudantes negras e negros. Em 2015, CRIOLA esteve em Brasília ao lado de 50 mil mulheres na Marcha das Mulheres Negras contra o Racismo, a Violência e pelo Bem-Viver.
A pandemia testou essa força — e CRIOLA respondeu com organização e cuidado coletivo, distribuindo cestas básicas, promovendo mutirões de acesso ao auxílio emergencial e entregando ao STF, em 2020, a Carta das Mulheres Negras contra o Racismo e a Violência e pelo Bem-Viver. Nos anos seguintes, levou essa voz a fóruns internacionais da ONU, como a COP27. Em 2022, aos 30 anos, celebrou sua trajetória homenageando as ialodês do passado e do presente.
De lá para cá, CRIOLA só ampliou seu alcance. Consolidou presença na CSW (Comissão sobre a Situação da Mulher) e no High Level Political Forum; conquistou a aprovação histórica do parágrafo 35b do documento de conclusões acordadas da CSW68, 23 anos depois de Durban, reconhecendo oficialmente a contribuição de mulheres e meninas de ascendência africana para o desenvolvimento das sociedades; e ajudou a criar o inédito Stakeholder Group no Fórum Permanente de Pessoas Afrodescendentes da ONU, coletivo que tem o direito de propor políticas, emitir posicionamentos estratégicos e discursar formalmente nos principais processos intergovernamentais da ONU. Em novembro de 2025, aos 33 anos, liderou a maior comitiva de sua história para a COP30, em Belém, com 15 lideranças negras.
No Brasil, o projeto Saúde das Mulheres Negras já mobilizou mais de 740 parceiros e impactou mais de 7.500 mulheres na Região Metropolitana do Rio; em 2025, promoveu o Festival Mulheres Negras por Reparação e Bem-Viver e participou da segunda Marcha das Mulheres Negras em Brasília. Em 2026, o Curso da Diáspora, realizado em parceria com a Universidade Columbia, chegou à sua 20ª edição.
Hoje, aos 34, CRIOLA é resultado de tudo isso: mais representada em espaços de poder, mais protegida por leis conquistadas com muito esforço, mais organizada em rede, mais reconhecida internacionalmente.
O exercício de personificação é também um convite a olhar para frente: o que essa mulher, e todas as mulheres negras brasileiras que ela representa, ainda vão conquistar? É esse o horizonte que baliza os próximos 34 anos de CRIOLA.
Sobre CRIOLA
CRIOLA é uma organização da sociedade civil fundada em 1992 e conduzida por mulheres negras. Atua na defesa e promoção de direitos das mulheres negras em uma perspectiva integrada e transversal, tendo por missão trabalhar para a erradicação do racismo patriarcal cisheteronormativo, contribuindo com a instrumentalização de meninas e mulheres negras, cis e trans, para a garantia dos direitos, da democracia, da justiça e pelo Bem Viver.

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