Acusações de ‘greenwashing’ na Copa do Mundo completam três anos em junho; saiba quais são as diretrizes da FIFA para 2026
Em meio ao Junho Verde, acusações de ‘greenwashing’ na Copa do Mundo completam três anos desde as polêmicas de ‘neutralidade climática’ no Catar (2022). Entidades internacionais alertam para a retomada dos fenômenos de ‘green e sportswashing’.
Com R$ 46 bilhões (US$ 8,9 bilhões) em jogo, a Copa do Mundo 2026 avança para o título de ‘torneio mais lucrativo da história’, segundo dados da S&P Global Market Intelligence. Por trás da paixão pelo futebol e pela taça, as polêmicas envolvendo a FIFA ganham novos desdobramentos, após o legado de greenwashing no Catar, em 2022.
Em meio às cifras bilionárias, a nova edição do torneio chega após três anos das acusações envolvendo “greenwashing”, neste mês de junho. Na época, a comissão Suíça de Equidade alegou que a FIFA criou uma “impressão falsa e enganosa de que havia alcançado a neutralidade climática antes e durante o torneio”, segundo as informações da Carbon Market Watch.
“Em dezembro de 2022, a Comissão Suíça de Equidade teria contradito, com respaldo de organizações na Bélgica, França, Reino Unido e Países Baixos, as alegações da FIFA de que a Copa do Mundo não teria impactos climáticos, ou seja, que haveria uma neutralidade de carbono na Copa do Catar. Agora, a própria FIFA se coloca em um cenário duvidoso, já que a Copa do Mundo de 2026 ocorrerá nos Estados Unidos, que retirou o país do Acordo de Paris pela segunda vez. Isso traz à tona um questionamento: a preocupação com a sustentabilidade é genuína? Ou é um pano para agradar as agendas internacionais?”, questiona Liu Berman, líder do Movimento Reinventando Futuros e da LB Cultura Circular.
Entre os especialistas, a preocupação marcante é com as previsões de poluentes. As estimativas de 7,8 milhões de toneladas de CO₂ na atmosfera durante o torneio não casam com as diretrizes da ata ‘Environmental pillar’, da FIFA, especificamente o Objetivo EN3, que visa reduzir a poluição atmosférica local proveniente dos locais e operações do torneio em 2026.
Movimentando companhias aéreas, alocação de estádios, concentração de público e combustíveis para o deslocamento entre arenas nos Estados Unidos, México e Canadá, a Copa do Mundo 2026 tem a árdua tarefa de não repetir o ‘greenwashing’ do Catar, em um cenário penalizado para os jogadores pelas mudanças climáticas. “Enquanto a preocupação com a agenda climática e sustentável não for real, casos de ‘lavagem verde’ (greenwashing) vão continuar existindo. Reduzir a poluição local, dentro da maior competição de futebol da história em números, será uma missão, no mínimo, desafiadora para os organizadores”, completa Berman.
Para a especialista, a dimensão dos desafios relacionados à sustentabilidade pode ser medida pelos números da Copa do Mundo. Em comparação com a edição de 2022, o torneio de 2026 contará com 50% mais seleções, 62,5% mais partidas e o dobro de estádios, além de ser disputado em três países, e não em apenas um. A competição também terá duração cerca de 35% maior. “Em todo o caso, não são apenas os jogadores que irão sentir as mudanças no clima. Os árbitros, comissões e, sem dúvidas, os torcedores também devem sentir os efeitos da onda massiva de poluentes e suas consequências na atmosfera”, revela.
Universidade de Manchester alerta cenário de ‘sportswashing’ em 2026
A realização da Copa do Mundo durante o ‘Junho Verde’ trouxe novas implicações, segundo a Universidade de Manchester. O relatório inédito “Football and Climate Change: A preview of the 2026 FIFA World Cup”, revela que a cada evento ou equipe patrocinadas por uma empresa de combustíveis fósseis, a hegemonia do capital fóssil torna-se um pouco mais enraizada na sociedade.
Ainda segundo o documento, enquanto o greenwashing procura fazer com que uma organização pareça menos prejudicial ao meio ambiente do que realmente é, o sportswashing busca integrar o capital fóssil ao futebol de forma tão profunda que sua presença pode passar despercebida, apesar dos danos ambientais evidentes.
“Em um cenário geopolítico internacional, em que os recursos fósseis são ativos de valor inestimável, o alerta fica para a prática do greenwashing e do sportswashing a nível mundial. A Copa do Mundo de 1934 e os Jogos Olímpicos de 1936 são exemplos históricos da prática de sportswashing, e não queremos essa mancha no principal torneio esportivo do mundo. Para tanto, devemos sair do que aconteceu no Catar em 2022 e preparar, realmente, indicadores de desenvolvimento econômico, social e cultural nos países-sede que atestem que as mudanças pensadas para o agora sejam, de fato, suficientes para manter a magia do futebol internacional nos próximos anos”, conclui Liu, referência nacional na articulação de territórios criativos e sustentáveis, e palestrante na programação oficial da COP30, pelas Nações Unidas.
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