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Porto: Realidade virtual reforça inovação no tratamento da ansiedade, fobias e perturbações de pânico

 A integração da realidade virtual na prática clínica assinala uma nova etapa no

acompanhamento de pacientes com ansiedade, fobias e perturbações de pânico, ao articular

inovação tecnológica com rigor clínico. É esta a realidade na EME Saúde, no Porto, um caso

que ganha agora destaque na nossa entrevista ao psicólogo clínico Marco de Melo Martin, que

explica de que forma a Terapia de Exposição com Realidade Virtual tem contribuído para

aumentar a adesão terapêutica, sobretudo entre pacientes que resistem à exposição em

contexto real.

A metodologia revela-se particularmente eficaz quando “a realidade virtual é especialmente

útil quando o paciente tem dificuldade em imaginar cenários ansiogénicos ou em descrevê-los

com detalhe”, permitindo um primeiro contacto com o estímulo temido num ambiente seguro

e controlado.

Ao longo da conversa, este especialista sublinha que “a grande força da realidade virtual é a

capacidade de modular finamente a exposição”, ajustando, em tempo real, a intensidade dos

estímulos ao estado emocional de cada paciente. Utilizada apenas em contexto de consulta

presencial, a VRET integra-se num plano psicoterapêutico estruturado, sem substituir a relação

terapêutica, mas reforçando-a. Entre controlo clínico, personalização do tratamento e

inovação, a abordagem aponta para um modelo de cuidados em saúde mental mais preciso,

alinhado com as exigências atuais da prática psicológica.

Tendo em conta a integração da realidade virtual na prática clínica da EME Saúde, como

avalia o Dr. Marco de Melo Martins o impacto desta tecnologia na adesão terapêutica de

pacientes com ansiedade, fobias e perturbações de pânico, sobretudo quando comparada

com modelos tradicionais de exposição em contexto real?

A integração da Terapia de Exposição com Realidade Virtual (VRET) é um complemento

recente à minha prática clínica. Ainda assim, noto já um impacto muito positivo na adesão dos

pacientes. Uma parte substancial deles que, em teoria, beneficiariam de exposição em

contexto real recusam ou adiam esse passo. Com a VRET, sentem-se mais disponíveis para

“experimentar” a exposição num ambiente controlado, dentro do consultório. Noto surpresa

positiva inicial com esta tecnologia, com o grau de realismo/imersão, aliada a uma sensação de

segurança— a pessoa sabe que pode interromper o procedimento a qualquer momento—e

isso reduz a resistência e aumenta o compromisso para com a intervenção psicoterapêutica.

Em comparação com a exposição em contexto real, noto menos evitamento, menos

cancelamentos e uma maior abertura para repetir sessões de exposição, o que é crucial para a

eficácia do tratamento.

Na sua experiência, que vantagens específicas a terapia de realidade virtual oferece no

tratamento de perturbações como ansiedade social, agorafobia ou medo de falar em

público, particularmente em pacientes que revelam resistência inicial à exposição direta ou

dificuldade em verbalizar os seus medos?



A realidade virtual é especialmente útil quando o paciente tem dificuldade em imaginar

cenários ansiogénicos ou em descrevê-los com detalhe. Por exemplo, na ansiedade social,

agorafobia ou medo de falar em público, consigo colocar o paciente em situações muito

específicas—uma sala de reuniões, um auditório, uma fila de supermercado, um transporte

público—com um grau de realismo visual e sonoro que a simples imaginação raramente

alcança. Para quem resiste à exposição direta, porque o grau de sofrimento é considerável, a

VRET funciona como uma “ponte”: não é ainda o mundo real, mas também já não é apenas um

exercício mental. O paciente sente-se protegido, mas confrontado. Isso permite trabalhar

gradualmente o medo, ajustando a hierarquia/intensidade dos estímulos, sempre com a

sensação de que se está acompanhado e em segurança.

De que forma a utilização de ambientes virtuais controlados permite uma personalização

mais rigorosa do tratamento psicológico, garantindo segurança clínica e respeito pelo ritmo

emocional do paciente no contexto das consultas presenciais e online promovidas pela EME

Saúde?

A grande força da realidade virtual é a capacidade de modular finamente a exposição. Posso

começar com cenários muito leves e ir aumentando, passo a passo, a complexidade e a

intensidade dos estímulos: mais pessoas, mais ruído, maior proximidade, situações mais

desafiantes. Posso também intercalar com cenários relaxantes. Tudo isto é ajustável em tempo

real, em função da resposta emocional do paciente. Do ponto de vista da segurança clínica, o

controlo é total: se o nível de ansiedade ultrapassa o que consideramos terapêutico, podemos

fazer pausa, recuar um nível, ou transformar a sessão num momento de treino de regulação

emocional. O paciente sente que o seu ritmo é respeitado, o que reforça a confiança na

intervenção. Neste momento, a VRET é utilizada apenas em contexto de consulta presencial.

Que desafios técnicos, éticos ou clínicos ainda se colocam à aplicação da realidade virtual em

psicologia clínica e como é que estes são geridos no acompanhamento de casos mais

complexos, como perturbações da personalidade ou perturbações do comportamento

alimentar?

Do ponto de vista técnico, ainda lidamos com softwares em evolução, que exigem atenção à

estabilidade, à qualidade da ligação à internet e à compatibilidade dos equipamentos. É

essencial garantir que a tecnologia não se torna uma fonte adicional de frustração ou

ansiedade. Eticamente, a VRET não deve ser usada como um artifício ou um “atalho”. É uma

técnica de exposição, inserida num enquadramento psicoterapêutico sólido, com avaliação,

formulação de caso e objetivos claros. Portanto, é apenas uma parte de um tratamento

psicológico estruturado. Em casos mais complexos — como perturbações da personalidade ou

perturbações do comportamento alimentar — sou particularmente cauteloso: a VRET pode ser

útil para trabalhar situações específicas (por exemplo, contextos sociais, situações de

alimentação em público), mas não será de todo o foco central do tratamento. A decisão de

usar ou não VRET é sempre ponderada em função do diagnóstico clínico, das comorbilidades e

das preferências do paciente. Nas pessoas em que o risco de desconforto físico (como por

exemplo náusea/enjoo) é maior, posso optar por não utilizar a VRET ou fazê-lo de forma muito

limitada.


Olhando para o futuro da saúde mental, de que modo antevê a consolidação da terapia de

realidade virtual no sistema de cuidados psicológicos e qual considera ser o seu papel

complementar na relação terapêutica, sem substituir a dimensão humana do

acompanhamento clínico?

Vejo a realidade virtual como uma ferramenta que, com substancial grau de probabilidade, se

vai consolidar progressivamente, sobretudo em áreas onde a exposição é central, mas

logisticamente difícil: fobias específicas, ansiedade social, pânico com agorafobia, medo de

voar, medo de conduzir, entre outras. A evidência científica tem vindo a mostrar que a VRET

pode ter eficácia semelhante à exposição em contexto real em vários quadros clínicos, e isso,

aliado à maior acessibilidade tecnológica e necessidade premente de inovação nesta área,

tende a favorecer a sua integração nos serviços de saúde mental. Mas para mim é crucial

sublinhar: a VRET é uma técnica complementar, não substitui nem a relação terapêutica nem o

processo psicoterapêutico, é apenas parte dele. Se a VRET for usada de forma ética e

integrada, pode até reforçar a aliança terapêutica—o paciente sente que enquanto enfrenta os

seus medos, o psicólogo clínico está, literalmente, ao seu lado.

Como surgiu a oportunidade de atuar junto da EME Saúde?

A oportunidade surgiu numa fase em que procurava uma mudança profissional, que fosse mais

de encontro ao modo como vejo a psicologia clínica e a psicoterapia. Conheço o Professor

Ivandro Soares Monteiro há mais de dez anos e já tinha trabalhado com ele no passado, pelo

que foi para mim natural voltar a colaborar com a clínica EME Saúde. Há um ambiente positivo

de liberdade e recetividade à inovação terapêutica na EME Saúde que torna a clínica num local

perfeito para a implementação deste projeto. A convergência foi, portanto, natural. A partir do

início do último trimestre de 2025, iniciámos a integração estruturada da Terapia de Exposição

com Realidade Virtual, com o objetivo de oferecer aos pacientes um tratamento rigoroso e

inovador. Sublinho que a saúde mental precisa muito de inovação, após décadas em que os

avanços nos tratamentos são escassos.

E quais as vantagens do tratamento associado à realidade virtual? Que resultados pode

apontar?

As principais vantagens que observo são:

Sensação de Imersão: A combinação de estímulos visuais e sonoros de qualidade assinalável,

cria uma sensação de presença muito próxima da realidade, o que é essencial para uma

exposição eficaz, sobretudo em pacientes que têm dificuldade em imaginar o estímulo

ansiogénico. E este aspeto é crítico no enfraquecimento de memórias disfuncionais antigas e

na criação de memórias mais racionais, ou seja, de uma nova aprendizagem sobre o estímulo;

Acesso a situações difíceis ou impossíveis de reproduzir: Voar de avião, conduzir em

determinados contextos, procedimentos médicos específicos (agulhas, ressonância magnética)

ou certos cenários sociais são logisticamente complexos na exposição tradicional; na VRET

tornam-se acessíveis, repetíveis e controláveis;


Controlo, repetibilidade e hierarquia: Posso repetir o mesmo cenário quantas vezes for

necessário, posso ajustar/hierarquizar gradualmente a dificuldade, algo que no mundo real é

muitas vezes impraticável;

Diversidade de condições tratadas: é possível ajudar a tratar através desta técnica uma série

de condições. Exemplos: medo de animais, andar de avião, situações sociais, falar em público,

transportes, túneis, elevadores, conduzir, situações hospitalares (agulhas, ressonância

magnética, dentista, etc.), medo de tosse/vomitar, situações relacionadas com perturbação

obsessivo-compulsiva, alturas, etc;

Maior aceitação e menor resistência: Muitos pacientes mostram surpresa positiva,

curiosidade e um substancial grau de aceitação. Até agora, não registei queixas de efeitos

adversos relevantes.

Em termos de resultados, embora ainda estejamos numa fase inicial, observo reduções

significativas da ansiedade associada aos estímulos sobre os quais nos focamos, maior

confiança dos pacientes em enfrentar situações reais e um sentimento de empowerment— “se

consegui aqui, talvez consiga lá fora”. A VRET não é, por si só, o tratamento; mas, quando

integrada num plano psicoterapêutico bem estruturado, tem-se revelado uma aliada muito

promissora, num contexto de necessidade evidente de inovação em saúde mental.

Por fim, quem Marco de Melo Martins?

Cresci nos Açores, na ilha Graciosa, a segunda mais pequena do arquipélago, com apenas 62

quilómetros quadrados de área e onde residem menos de quarto mil pessoas. Vim para o

continente frequentar o ensino superior. Formei-me na Escola de Psicologia da Universidade

do Minho. Vivo e trabalho no Porto há largos anos. Sou psicólogo clínico, especialista em

psicologia clínica e da saúde pela Ordem dos Psicólogos Portugueses. Possuo ampla

experiência clínica. Desde o início da minha carreira profissional, atendi em consulta mais de

1.300 pessoas e largos milhares de horas de consulta psicológica.

Ígor Lopes

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