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Ser Host vai muito além de fazer perguntas - Por Claudio R.Palermo

Ser Host vai muito além de fazer perguntas.  É criar conexões, conduzir conversas e gerar experiências memoráveis.  Ao longo da minha trajetória no rádio, podcasts, eventos e apresentações corporativas, percebi que muitos profissionais possuem conhecimento, mas ainda encontram dificuldades para conduzir entrevistas com segurança, naturalidade e presença.  Por isso desenvolvi minha Mentoria para Hosts, um treinamento prático para quem deseja apresentar podcasts, eventos, lives, programas de rádio e entrevistas com mais confiança e profissionalismo.  Durante a mentoria, trabalhamos técnicas de postura, improviso, controle emocional, elaboração de perguntas, escuta ativa e estratégias para criar uma conexão genuína com convidados e audiência.  Um bom host não apenas conduz uma conversa. Ele transforma conteúdo em experiência. Se você deseja elevar seu nível de comunicação e se destacar como apresentador, estou pronto para ajudá-lo nessa jornada. 📲 Informações: (11...

Liderar no terceiro setor é transformar dor em estrutura

 


Por Bianca Provedel*


Bianca Provedel


O terceiro setor brasileiro é grande, estratégico e ainda subestimado. Segundo a Conta Satélite das Instituições Sem Fins Lucrativos do IBGE, o setor representa cerca de 4,27% do PIB nacional, movimentando aproximadamente R$ 423 bilhões por ano. De acordo com dados do Ipea, com base na RAIS e no Mapa das Organizações da Sociedade Civil, são cerca de 4,7 milhões de trabalhadores atuando em milhares de organizações espalhadas pelo país.
 

É uma força econômica real e é também um setor majoritariamente feminino. Estudos do Ipea e levantamentos baseados na RAIS indicam que cerca de 65% da força de trabalho das organizações da sociedade civil é composta por mulheres.

Além de potência, esses números nos revelam responsabilidade.
 

Liderar no terceiro setor é mais que ocupar um cargo de gestão, é também assumir o dever de transformar vulnerabilidade em política estruturada, dor em estratégia e urgência em ação contínua. É administrar impacto social com o mesmo rigor com que se administra resultado financeiro.
 

Há mais 20 anos no Instituto Ronald McDonald, aprendi que propósito, sozinho, não sustenta uma organização. O que sustenta é governança, transparência, planejamento estratégico, disciplina financeira e capacidade de articulação com empresas, poder público e sociedade civil. O que sustenta é transformar cada recurso captado em impacto mensurável na vida de quem precisa.
 

Ao longo dessas duas décadas, vi famílias chegarem despedaçadas pelo diagnóstico de câncer de um filho. Vi mães perderem o chão. Vi pais tentando manter uma força que nem sempre tinham. Também vi remissões. Vi crianças retomando a escola. Vi adolescentes voltando a fazer planos.
 

Sou mãe, por isso, reconheço que nenhuma mãe passa ilesa por histórias como essas.
 

Contudo, liderar exige equilíbrio. Eu não posso ser movida apenas pela emoção. Preciso negociar com grandes empresas, defender orçamento, dialogar com gestores públicos, comprovar indicadores, fortalecer governança e garantir sustentabilidade institucional. Preciso mostrar, todos os dias, que investir em oncologia pediátrica é uma decisão estratégica para o país.
 

Quando assumi a posição de CEO do Instituto Ronald McDonald, o cenário estava longe de ser confortável. Recebi o convite em um momento crítico, logo após a pandemia, com fluxo de caixa limitado, equipe reduzida e uma projeção que indicava poucos meses de fôlego financeiro para a instituição. O primeiro passo foi olhar com profundidade para dentro da organização, renegociar compromissos, revisar processos e pedir ao conselho um prazo para reconstruir as bases de sustentabilidade. Seis meses depois, conseguimos retomar a estabilidade e abrir espaço para voltar a pensar estrategicamente. Hoje temos sede própria, uma equipe maior e voltamos a discutir expansão e ampliação de impacto.
 

O terceiro setor deixou de ser assistencialismo há muito tempo. Hoje falamos de métricas, compliance, ESG, indicadores de desempenho e impacto estruturado. Falamos de eficiência, transparência e resultados mensuráveis.
 

Ainda assim, enfrentamos desafios constantes. Captação de recursos em um ambiente econômico instável. Mudanças regulatórias. Exigências crescentes por transparência. Competição por atenção e investimento social. E, acima de tudo, a urgência de famílias que não podem esperar.
 

Costumo dizer que, muitas vezes, precisamos vencer vários leões por dia. O leão da sustentabilidade financeira. O leão da credibilidade. O leão da gestão de pessoas. O leão da responsabilidade institucional que não admite falhas.
 

E sendo mulher, há uma camada adicional.
 

Embora 65% da força de trabalho do setor seja feminina, isso não significa que as mulheres ocupem esses espaços de liderança com a mesma facilidade. Muitas mulheres chegam ao topo em momentos de maior risco institucional, quando organizações enfrentam crises ou processos de reorganização. São chamadas para reconstruir, reorganizar e estabilizar estruturas que já passaram por outras lideranças. Isso exige não apenas competência técnica, mas resiliência e coragem para tomar decisões difíceis sob alta pressão.
 

Existe também um dado que não pode ser ignorado. Segundo o Ministério da Previdência Social e dados do SUS, mulheres representam cerca de 60% a 70% dos afastamentos por transtornos mentais no Brasil nos últimos anos. Em um setor movido por propósito, onde a carga emocional é intensa, isso se torna um alerta. Cuidar de quem cuida é uma agenda urgente.
 

Mas é justamente nessa combinação que reside nossa força.
 

A liderança feminina no terceiro setor carrega uma capacidade singular de articulação e construção coletiva. Sabemos conectar. Sabemos ouvir. Sabemos transformar escuta em política institucional. Empatia não é fragilidade. É ferramenta de gestão. É ela que nos permite desenhar programas que realmente respondem às necessidades das famílias.
 

Ao mesmo tempo, liderar exige firmeza. É dizer não quando necessário. É priorizar investimentos. É tomar decisões impopulares para garantir sustentabilidade no longo prazo. É proteger a instituição para que ela continue existindo quando o ciclo de crise passar.
 

Dentro do Instituto Ronald McDonald, acreditamos que igualdade de gênero precisa ser mais do que discurso. Ao longo dos últimos anos, fortalecemos políticas internas de valorização da liderança feminina, ampliamos oportunidades de desenvolvimento profissional e estruturamos um ambiente em que mulheres possam crescer, liderar e tomar decisões estratégicas. O terceiro setor só será verdadeiramente transformador se também for coerente dentro de suas próprias estruturas.
 

Eu escolhi estar onde estou. E luto todos os dias para permanecer nesse espaço não por vaidade, mas por responsabilidade. Porque cada decisão impacta diretamente a jornada de crianças e adolescentes em tratamento oncológico e de suas famílias.
 

A liderança no terceiro setor precisa ser reconhecida como liderança estratégica. Estamos falando de um setor que movimenta centenas de bilhões de reais, gera milhões de empregos e influencia políticas públicas. Não é um apêndice da economia. É parte estruturante dela.
 

Se um setor que representa mais de 4% do PIB brasileiro e emprega milhões de pessoas é majoritariamente conduzido por mulheres, isso não é apenas uma estatística de gênero. É um dado econômico, social e político relevante. Significa que grande parte da transformação social do país passa, diariamente, pela liderança feminina.
 

Se há algo que aprendi nesses 20 anos é que transformar realidades exige mais do que boa intenção. Exige estrutura. Exige governança. Exige coragem para ocupar espaços de decisão. E exige mulheres que não desistam de liderar com competência, visão e humanidade.
 

Liderar, para mim, é sustentar esperança com estrutura.

É sentir cada história, mas decidir com estratégia.

É transformar o propósito em impacto real.
 

E é provar, todos os dias, que quando mulheres lideram no terceiro setor, a transformação ganha escala, consistência e futuro.

 

*Bianca Provedel é jornalista, psicóloga, mãe, e há mais de 20 anos atua no terceiro setor. É CEO do Instituto Ronald McDonald, organização que já impactou mais de 15 milhões de vidas em todo o Brasil.




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