Pratos como a feijoada, presente em refeições familiares frequentes, o bolinho de
bacalhau do bar e a canja tradicionalmente associada ao cuidado doméstico têm algo
em comum: todos teriam nascido em Portugal.
Pesquisas em história da alimentação
indicam que o paladar brasileiro contemporâneo é fortemente influenciado pela
migração portuguesa, processo que consolidou tradições à mesa e moldou o cotidiano
alimentar do país.
A nossa reportagem destaca cinco pratos consumidos regularmente no dia a dia
brasileiro que contam com origem direta na gastronomia portuguesa: feijoada, arroz
doce, caldo verde, bolinho de bacalhau e canja de galinha.
Segundo a historiografia alimentar, a feijoada deriva dos cozidos portugueses
documentados na Europa desde a Idade Média. No Brasil, a preparação incorporou
ingredientes locais e ganhou forma própria ao longo dos séculos XVIII e XIX, mantendo
a lógica da cocção lenta de carnes e grãos.
Hoje, o modelo disponível no país integra uma grande camada de afetividade brasileira e africana.
O arroz doce preservou a estrutura básica da sobremesa tradicional portuguesa,
mesmo com variações regionais.
O caldo verde, originário do Minho, no norte de Portugal, mantém a base de batata,
couve e enchidos.
O bolinho de bacalhau reflete a centralidade do pescado salgado na alimentação
portuguesa e tornou-se petisco recorrente no Brasil.
A canja de galinha tem origem nas sopas leves da tradição doméstica portuguesa,
associadas ao consumo cotidiano.
“Degustação” luso-brasileira na cidade maravilhosa
No Rio de Janeiro, uma das principais portas de entrada da imigração lusa, essa
herança permanece visível no centro da cidade. O comerciante português Domingos
Cunha, natural de Póvoa de Lanhoso, região Norte do país europeu, chegou ao Brasil
em 1964, aos 14 anos, integrando o fluxo migratório que trouxe mais de 400 mil
portugueses ao país entre 1950 e 1970.
Aos 75 anos, comanda há mais de quatro décadas o Bar e Restaurante Glória, fundado em 1945 na Rua do Acre, 6, bairro da Saúde, junto à revitalizada praça Mauá.
O estabelecimento atravessou transformações urbanas e períodos de retração
económica, mas, conseguiu manter no cardápio, além de pratos mais acessíveis para o
dia a dia dos trabalhadores, uma ementa que inclui bacalhau, leitão à bairrada,
feijoada, por exemplo.
“A longevidade do Glória e dessas receitas reforça como a cozinha de matriz
portuguesa deixou de ser estrangeira para integrar-se ao cotidiano alimentar
brasileiro. É como é bom poder usar e desfrutar dessa ligação”, comentou Domingos
Cunha.
Ígor Lopes

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