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150 anos da Estrada de Ferro Sorocabana: trilhos que uniram cidades, vidas e lutas

 Por: José Claudinei Messias, presidente do Sindicato Sorocabana

 
Cento e cinquenta anos. Esta é a idade da Estrada de Ferro Sorocabana, inaugurada em julho de 1875. Sua construção foi um marco para o desenvolvimento econômico, urbano e social de diversos municípios, impulsionando a industrialização, o povoamento e o crescimento da produção agropecuária para atender o consumo regional, da capital e até do país.


Inicialmente projetada para exportar algodão, a ferrovia logo assumiu papel no transporte de café, mercadorias e passageiros entre o interior de São Paulo e o litoral. Isso foi importante para o crescimento do estado e, indiretamente, para o progresso nacional.


Historicamente, a Estrada de Ferro Sorocabana operou uma extensa linha tronco, com mais de 800 km, conectando a capital São Paulo a Presidente Epitácio, no oeste paulista. No percurso, atendia importantes municípios, como Barueri, Mairinque, Sorocaba, Iperó, Boituva, Botucatu, Avaré, Ourinhos (onde havia interligação com o Paraná), Assis e Presidente Prudente. Além disso, possuía ramais fundamentais, como o de Itararé, que conectava Iperó ao Paraná, e o de Jurubatuba, que depois virou a Linha 9-Esmeralda da CPTM, que ligava São Paulo à região portuária de Santos.


O trecho de Presidente Epitácio à Ourinhos foi desativado no início de 2001 e muita luta foi feita para reativação, porém o abandono continuou. Já no início de 2024, o trecho Ourinhos-Londrina teve a circulação de trens suspensa também.

Outro eixo foi o ramal que ligava Mairinque a Santos, com paradas em cidades como Embu Guaçu, São Vicente, Cubatão, São Roque (distrito de Canguera), Itapecerica da Serra e Evangelista de Souza, totalizando cerca de 155 km. Esses ramais contribuíram para a integração regional e o escoamento da produção agrícola e industrial.


A importância histórica e econômica da Sorocabana é incontestável, mas é preciso valorizar os milhares de trabalhadores que construíram e mantiveram esses trilhos. Brasileiros e estrangeiros, eles sempre demonstraram orgulho da profissão e consciência do seu papel no desenvolvimento e na economia do país.


Nem sempre eles tiveram boas condições de trabalho. Os registros mostram que em 1897 surgiram as primeiras entidades de auxílio mútuo, que atuavam como forma de previdência, saúde e educação. Porém, diante das más condições de trabalho, jornadas exaustivas e baixos salários, os ferroviários passaram a se organizar de forma mais reivindicatória. Entre 1914 e 1919, protagonizaram greves históricas, que levaram à transferência da ferrovia para o controle público.


O Sindicato dos Ferroviários da Estrada de Ferro Sorocabana foi fundado em 1932 e logo se tornou uma das maiores entidades sindicais da América do Sul. Uma importante greve de 1934 consolidou sua força. Em 1940, foi fechado pelo governo Vargas e, após diversas tentativas de rearticulação, deu origem ao atual Sindicato dos Trabalhadores em Empresas Ferroviárias da Zona Sorocabana, reconhecido oficialmente em 1974.


O sindicato está completando 50 anos de existência formal. Ele atua na defesa dos direitos dos trabalhadores da base Sorocabana, da CPTM e da iniciativa privada, ativos e aposentados, garantindo representação, enfrentando a precarização e acompanhando com preocupação os processos de concessão e privatização do setor.
Nos dias atuais, a malha ferroviária original da Sorocaba deu lugar a diferentes administrações e usos. Parte da infraestrutura foi concedida à iniciativa privada, como a Rumo Logística, que opera trechos importantes para transporte de cargas até o Porto de Santos, junto com a Ferrovia FCA. Já a CCR, atual MOTIVA, além das Linhas 08 e 09, administra também as linhas da ViaQuatro do Metrô e também rodovias, com a CCR Sorocabana, que administra cerca de 460 km de rodovias estaduais. Também no transporte de passageiros, temos a BR Mobilidade, que administra o VLT da Baixada Santista.


O Sindicato sempre esteve ao lado dos trabalhadores na Sorocabana, na defesa de seus direitos, qualquer que seja a sua infraestrutura. E segue em frente, trilhando novos caminhos com a mesma força de quem construiu o passado, lutando para que um dia as ferrovias voltem a ter a importância que já tiveram no estado e no país, levando e trazendo riquezas, contribuindo com o desenvolvimento na nação.



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