Avanço da intolerância religiosa exige união das religiões de matriz africana e presença estratégica nos espaços públicos e políticos
Por Claudio R.Palermo*
Os casos de intolerância religiosa no Brasil não apenas crescem — eles se tornam cada vez mais violentos e estruturados. Dados do Ministério dos Direitos Humanos apontam que as denúncias de discriminação religiosa vêm subindo ano após ano, com as religiões de matriz africana concentrando a maior parte das vítimas.
Terreiros incendiados, sacerdotes ameaçados, símbolos sagrados destruídos e ataques verbais se somam a um cenário que deixa claro: a liberdade religiosa segue em risco, apesar de ser um direito constitucionalmente assegurado.
Diante desse quadro, é inevitável reconhecer que as tradições afro-brasileiras precisam fortalecer sua articulação interna e intensificar sua presença nos espaços de tomada de decisão.
A união entre casas de axé não é apenas um gesto simbólico — é uma estratégia de sobrevivência e afirmação identitária. Quanto mais conectadas, organizadas e visíveis estiverem, maior será a capacidade de enfrentar discursos de ódio, mobilizar a sociedade e influenciar políticas públicas.
Ocupar espaços públicos e, sobretudo, espaços políticos, torna-se uma ação urgente.
Participar de conselhos municipais de cultura e igualdade racial, integrar coletivos de resistência, marcar presença em audiências públicas e apoiar candidaturas comprometidas com a diversidade religiosa são iniciativas que fazem diferença prática.
É nesses ambientes que se discutem protocolos de proteção aos terreiros, medidas de enfrentamento ao extremismo religioso e ações educativas para combater o preconceito desde a base.
Mas nada disso avança sem a cobrança firme sobre o Estado brasileiro. É papel dos entes públicos fiscalizar, investigar e punir com rigor os crimes motivados por intolerância.
A impunidade alimenta a violência, enquanto a atuação efetiva das autoridades cria barreiras reais contra agressores e extremistas.
A sociedade e especialmente os praticantes das religiões afro-brasileiras deve exigir que delegacias especializadas funcionem plenamente, que o Ministério Público atue com celeridade e que programas de proteção cultural incluam de forma prioritária os terreiros.
A intolerância religiosa não é um problema isolado: ela é sintoma de racismo estrutural, colonialismo persistente e desconhecimento histórico. Por isso, o combate a esse fenômeno exige articulação política, presença ativa nos debates públicos e união entre as casas de axé.
Somente assim será possível construir uma barreira sólida contra o preconceito e afirmar, com legitimidade e força, a importância das religiões de matriz africana na formação cultural, espiritual e democrática do Brasil.
*Claudio Roberto Palermo é Jornalista, Locutor e Professor de Oratória
Foto: Imagem de Marcello Migliosi por Pixabay

Parabéns pela matéria e exposição de infelizmente ainda a vulnerabilidade social de algumas expressões religiosas ainda neste século XXI. Falta ainda grande consciência de muitos, e a defesa de fato de liberdade de oratocas da religiosidade diversa.
ResponderExcluirGratidão!
ExcluirDigo, liberdade de muitas outras formas da religiosidade...
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