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Investir em jovens periféricos é investir no futuro da diversidade

 

*Por Marcela Zitune, superintendente do Instituto da Oportunidade Social (IOS)

 

Muito se fala sobre a Geração Z, mas pouco sobre a realidade dos jovens periféricos do Brasil, que representam mais de 23% da população e vivem majoritariamente nas classes C, D e E. Esses jovens sonham em crescer, trabalhar e conquistar autonomia, mas enfrentam barreiras que se repetem geração após geração: escolas que não preparam para o mundo do trabalho, empresas que exigem experiência para o primeiro emprego, discriminação por território e classe e a ausência de políticas efetivas de transição entre educação e trabalho.

 

Discutir diversidade sem falar da inclusão produtiva de jovens é enxergar apenas a superfície do problema. A base de equipes diversas e inovadoras não está na contratação em si, mas no acesso prévio ao aprendizado e às oportunidades que tornam o emprego possível.

 

O estudo “Jovens Periféricos no Mercado de Trabalho Brasileiro”, realizado pelo IOS em parceria com a consultoria Santo Caos, mostra o tamanho do desafio. Embora a Lei da Aprendizagem, que completa 25 anos em 2025, determine que empresas de médio e grande portes contratem entre 5% e 15% de aprendizes, 80% das companhias ainda não cumprem essa obrigação. Em 2024, um quarto das empresas fiscalizadas sequer possuía um aprendiz contratado. Essa lacuna vai além do descumprimento legal: representa uma barreira concreta para que jovens, especialmente os que vivem nas periferias, tenham acesso ao mercado formal.

 

Não por acaso, 84% dos jovens periféricos acreditam que morar na periferia reduz suas chances de contratação e 59% não se sentem seguros em relação ao futuro profissional. O recado é claro: esses jovens sabem que partem de um ponto de desigualdade estrutural e cabe às empresas e à sociedade criar caminhos reais de equidade.

 

Há, no entanto, soluções e resultados que mostram que a transformação é possível. Há 27 anos, o IOS atua como ponte entre formação, empregabilidade e inclusão produtiva. A instituição oferece cursos gratuitos em tecnologia, administração, gestão e desenvolvimento socioemocional, aliados a apoio psicossocial, mentoria, trilhas de empregabilidade e conexão direta com empresas parceiras.

 

Em 2024, 1.800 jovens concluíram a formação no IOS e 1.407 conquistaram emprego formal: 739 como aprendizes, 519 com contrato CLT e 149 como estagiários. Mais da metade desse público é formado por pessoas negras (56%) e mulheres (55%), o que comprova que investir em jovens é também investir na diversidade racial e de gênero dentro das empresas.

 

O impacto vai muito além da contratação: os jovens empregados tiveram aumento médio de 59% na renda familiar, a evasão escolar caiu 10 pontos percentuais nos últimos três anos e a circulação de renda gerada por eles já movimenta mais de R$ 22 milhões ao ano na economia brasileira.

 

Esses resultados deixam claro que investir em jovens não é caridade, é estratégia de negócios. A pesquisa mostra que três em cada quatro jovens periféricos que tiveram experiência formal começaram a trabalhar antes da maioridade. Quanto antes as empresas se conectam a esse talento, maior é a possibilidade de moldar competências, valores e visão de carreira alinhados à sua cultura organizacional.

 

O futuro do trabalho será cada vez mais digital, inclusivo e interconectado. Empresas que não se anteciparem na formação e contratação de jovens diversos não estarão apenas atrasadas em suas metas de diversidade ou ESG, mas também menos preparadas para inovar e competir.

 

No IOS, seguimos acreditando que diversidade de verdade começa com oportunidade. Mas, para que essa oportunidade seja ampla e acessível, precisamos que mais empresas deixem de tratar a inclusão como discurso e passem a tratá-la como ação contínua e estratégica. Afinal, investir em jovens periféricos é investir no futuro, e um futuro mais justo, inovador e competitivo só se constrói agora.





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